OS TRATAMENTOS TÉRMICOS

1. Introdução

Os tratamentos térmicos ocupam um lugar essencial na relojoaria. Permitem modificar as propriedades mecânicas dos aços e das ligas utilizados. Três processos principais são habitualmente empregados: o recozimento, a têmpera e o revenido.

2. O recozimento

O recozimento efetua-se geralmente a temperaturas compreendidas entre 650 °C e 900 °C, consoante a liga tratada e o objetivo pretendido. Para os aços ao carbono empregues em relojoaria, nomeadamente no fabrico de pivôs, hastes ou parafusos, um recozimento de alívio de tensões efetua-se antes entre 550 °C e 650 °C a fim de libertar as tensões internas sem modificar profundamente a estrutura do metal. Um recozimento completo, destinado a amolecer fortemente o material antes da maquinagem, pode necessitar de temperaturas mais elevadas, compreendidas entre 750 °C e 900 °C. O arrefecimento faz-se sempre de forma lenta e controlada, muitas vezes no próprio forno ou num meio isolante como areia ou cinzas. Esta lentidão evita o aparecimento de novas tensões internas. O recozimento diz respeito principalmente aos aços ao carbono, mas também a certas ligas não ferrosas utilizadas em relojoaria, tais como o latão para as platinas e as pontes, bem como a alpaca (metal). Para estes metais, as temperaturas são geralmente mais baixas, entre 400 °C e 600 °C, devido ao seu ponto de fusão inferior ao do aço.

3. A têmpera

A têmpera é realizada após uma fase de austenitização, com um aquecimento tipicamente entre 780 °C e 950 °C para os aços de ferramentas ou de molas comummente utilizados em relojoaria. Esta temperatura permite que a estrutura cristalina do metal se transforme em austenite, uma fase instável à temperatura ambiente. O arrefecimento deve depois ser extremamente rápido para fixar esta estrutura sob a forma martensítica, muito mais dura. Consoante a liga, este arrefecimento é efetuado em óleo, em água, ou por vezes ao ar para certos aços especiais de têmpera dita «suave». Historicamente, alguns relojoeiros utilizavam também banhos de chumbo fundido para um controlo térmico mais preciso. A têmpera diz respeito quase exclusivamente aos aços com elevado teor de carbono, os únicos capazes de sofrer esta transformação martensítica. É aplicada nomeadamente aos eixos e às lanternas, às molas, às peças mecânicas sujeitas a um forte desgaste ou a uma forte pressão, bem como a certas ferramentas de fabrico. Os metais não ferrosos, como o latão ou o ouro, não podem ser temperados desta forma, o seu endurecimento assentando noutros princípios, tais como o encruamento.

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Figura 1

Têmpera artesanal de um componente em Aço (900-950 °C – Vermelho cereja claro)

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3. O revenido

O revenido ocorre sistematicamente após uma têmpera, nos mesmos aços que sofreram essa transformação martensítica. Trata-se de um aquecimento moderado, geralmente entre 150 °C e 320 °C, cuja temperatura exata depende do compromisso pretendido entre dureza e resistência aos choques. Na relojoaria, este processo é tornado visível pelo fenómeno de azulamento: os parafusos e alguns componentes adquirem uma tonalidade que varia do amarelo palha por volta de 220 °C ao azul profundo, entre 290 °C e 320 °C. Esta coloração, devida a uma fina camada de oxidação superficial, servia tradicionalmente de indicador visual de temperatura para os artesãos relojoeiros, antes do uso de equipamentos de medição precisos. O arrefecimento seguinte ao revenido faz-se simplesmente ao ar livre, sem necessidade de rapidez particular. Este tratamento reduz a fragilidade excessiva induzida pela têmpera, mantendo ao mesmo tempo uma dureza suficiente para uso mecânico. O revenido diz respeito exclusivamente aos aços previamente temperados, nomeadamente os parafusos, as molas e diversos componentes de movimento sujeitos a esforços mecânicos repetidos.

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